A música e a poesia nascem de almas criativas e complementam-se mutuamente, em horas de júbilo ou nostalgia em dias de Primavera ou de solidão. Seguem de mão dada, vida fora, aquecendo serões de Inverno, iluminando noites sem estrelas, aquecendo almas geladas, preenchemdo espaços de silêncio ou dando voz a corações emudecidos.
A poesia não é aprendida nem estudada. Aparece no momento propício para alívio das dores de espírito, como o orvalho do deserto.
A música vive no âmago desses que a sentem e a sabem transmitir ao mundo em ondas transparentes que reflectem sentimentos de dor, alegria, saudade ou devoção, todo esse mundo intangível, que brota do imaginário de seres sonhadores, que se atrevem a construir castelos de espuma onde habitam memórias e recordações.
Alimento do espírito, a música e a poesia são fontes de água límpida que da forma mais pura conseguem saciar almas sensíveis que vivem em desertos de solidão.
A música e a poesia, irmãs gêmeas inseparáveis, vivem em harmoniosa comunhão ecoando sentimentos, cantos ou lamentos que revelam emoções em vozes da alma que, nas andanças da vida, se fazem acompanhar pelos gemidos trinados das guitarras de todas as gerações.
Ai quem me dera
Voltar um dia aos Açores
Canteiro de lindas flores
Onde eu nasci,
Ai quem me dera
Viver um dia a quimera
Das tardes de Primavera
Da terrinha onde vivi.
Ai se eu pudesse,
Olhar outra vez o mar
Que eu abraçava ao luar
Em toda a sua bravura,
Ai quem pudesse
Descer e subir canadas
Tocar as lanchas varadas
Num arrobo de ternura.
Ai quem me dera
Voltar num dia estival
Ao encanto virginal
Daquelas ilhas de bruma,
Ai quem me dera
Cavalgar aquele azul
Da onda de norte a sul
Entre respingos d'espuma.
Ai se eu pudesse
Voltar um dia aos Açores
Ouvir do mar os rumores
Sentir a chuva carpir,
Ai quem me dera
Cruzar outra vez o mar
Ouvir toninhas chorar
E adormecer a sorrir.
O vento sopra irritado
E, em meu peito cansado
Sinto dele a ansiedade,
Ele sopra as folhas caídas
Essência de tantas vidas
Em busca duma verdade.
Num rodopio transitório
Este mundo ilusório
Fez do vento a tempestade
Que deixa a alma despida
Nua de paz e de vida
Num ciclone de saudade.
São as lembranças da ilha
Duma lua que não brilha
Da imensidão, da maresia,
De que o vento traz fragrância
De sabores da distância
Em sopros de nostalgia.
Pela tarde enfranquecido
Duma luta sem sentido
O vento perde a coragem,
E, no advérbio da sorte
Talvez sopre menos forte
E recomece a viagem…